Teorias da conspiração podem parecer mais aceitas do que realmente são entre as pessoas de um grupo. Em seis estudos online, participantes dos Estados Unidos e do Reino Unido superestimaram quanto os demais acreditavam em alegações conspiratórias. O erro foi maior entre aqueles que também consideravam essas alegações mais plausíveis, segundo o site PsyPost.
A pesquisa reuniu 2.906 participantes e foi publicada no European Journal of Social Psychology. Seus autores são Jan-Willem van Prooijen, Paul K. Bergmann, Vladimira Čavojová e Jakub Šrol. Os seis estudos foram pré-registrados: as hipóteses e os planos de análise ficaram registrados publicamente antes da coleta de dados.
O trabalho investigou as chamadas normas descritivas — a percepção de quanto uma crença ou um comportamento é comum em determinado grupo. “Uma das razões pelas quais as pessoas acreditam em teorias da conspiração é que presumem que muitas outras pessoas também acreditam nelas”, disse van Prooijen, um dos autores, em entrevista ao veículo.
Como os participantes avaliaram a adesão às teorias da conspiração
Nos dois primeiros estudos, 300 americanos e 299 britânicos avaliaram a plausibilidade de dez alegações conspiratórias, em escalas de 0 a 100. Depois, estimaram as avaliações dos demais participantes.
Na amostra americana, a média real das avaliações foi de 33,09 pontos, mas a média estimada pelos participantes chegou a 39,85. Na britânica, os valores foram de 34,16 e 42,30, respectivamente. Esses números são notas de plausibilidade, não porcentagens de pessoas que acreditavam nas teorias.
Quem acreditava mais nas alegações também tendia a estimar maior adesão dos outros. As estimativas desses participantes eram menos precisas que as dos mais céticos.
Texto conspiratório aumentou a crença pessoal e as estimativas sobre os outros
Outros dois experimentos, com 505 americanos e 501 britânicos, distribuíram os participantes aleatoriamente entre a leitura de um texto conspiratório e a de um texto que rejeitava a conspiração. Entre os americanos, a crença pessoal média foi de 61,78 pontos após o texto conspiratório, contra 49,46 no grupo de comparação. Entre os britânicos, as médias foram de 59,78 e 41,99.
O texto conspiratório também aumentou as estimativas de quanto os demais acreditavam. As análises, porém, não permitiram estabelecer a ordem: se a percepção de adesão alheia aumentou antes da crença pessoal ou se ocorreu o contrário.
Os pesquisadores também testaram duas formas de informar os participantes sobre a adesão dos outros. Em um experimento com 501 americanos, dizer vagamente que muitas ou poucas pessoas consideravam as alegações plausíveis não produziu diferença estatisticamente significativa entre os grupos.
Dados concretos reduziram a crença em um teste, mas efeito duradouro é incerto
No último estudo, com 800 americanos, um grupo recebeu gráficos com a distribuição real das avaliações do primeiro experimento americano, a mediana e uma explicação sobre a baixa adesão àquelas alegações. Quem viu os dados estimou a crença média do grupo anterior em 20,95 pontos, contra 38,34 entre quem não recebeu as informações.
A crença pessoal média também foi menor entre os que viram os gráficos: 24,06 pontos, ante 33,70 no outro grupo. “Se fornecíamos informações mais abstratas, dizendo apenas que ‘poucas pessoas’ acreditam na teoria, sem apresentar números concretos, a intervenção não funcionava”, explicou van Prooijen ao comparar os testes.
Os experimentos foram breves e usaram outros participantes online como referência. Os autores alertam que os efeitos podem ser menores na vida cotidiana. A intervenção funcionou em apenas um experimento, e sua eficácia no longo prazo ainda precisa ser investigada.
