Encerrar uma relação não é a única possibilidade para quem convive com uma pessoa narcisista, afirma a psicóloga clínica Ramani Durvasula ao abordar o narcisismo. Em entrevista ao site bigthink.com, a autora de “It’s Not You: Identifying and Healing from Narcissistic People” questiona orientações que apresentam o rompimento como resposta única para relações com parceiros ou familiares que tenham esse padrão de personalidade.
Ao criticar essa abordagem em livros de autoajuda e desenvolvimento pessoal, Durvasula diz: “Uma das grandes falhas que vejo é a suposição de que, se alguém está em qualquer tipo de relacionamento com uma pessoa narcisista, a única solução é sair. E isso simplesmente não é acessível à grande maioria das pessoas.”
A possibilidade de escolher está no centro do trabalho que ela descreve. Isso inclui decidir interagir de outra maneira com a pessoa. Sua crítica à orientação de romper como única saída não equivale a uma recomendação geral para permanecer em uma relação.
Narcisismo reúne um conjunto de traços com diferentes intensidades
Na entrevista, Durvasula descreve o narcisismo como um estilo de personalidade que integra uma categoria mais ampla, chamada antagonismo. Entre os traços que apresenta estão arrogância, grandiosidade e o sentimento de merecer tratamento especial, além de empatia baixa ou variável.
A descrição também inclui egoísmo, superficialidade, vaidade, inveja e busca de atenção, admiração e validação. A psicóloga ressalta que esses traços precisam aparecer em conjunto para compor o padrão de que está falando. A lista, portanto, não serve para concluir que alguém é narcisista a partir de uma atitude isolada.
Segundo ela, situações de frustração, estresse ou decepção podem provocar reações diferentes em pessoas com esse padrão. Elas podem responder com irritação ou ficar silenciosas, retraídas e pouco comunicativas.
Durvasula também contesta a divisão rígida entre ter ou não ter narcisismo: “É um contínuo que vai do leve ao intenso. Não é uma questão de tudo ou nada.”
Como o tema passou do consultório à circulação nas redes
O interesse da psicóloga pelo tema começou no início dos anos 2000, quando era professora da California State University, em Los Angeles. Na época, investigava como pessoas narcisistas tomavam decisões e se comportavam nos relacionamentos.
No consultório, conta ela, clientes descreviam atitudes de parceiros e familiares semelhantes aos padrões que estudava. Seu primeiro livro sobre narcisismo nos relacionamentos foi “Should I Stay or Should I Go?”.
Durvasula associa a maior circulação do termo às redes sociais e à visibilidade de comportamentos de busca de atenção entre celebridades e nos ambientes empresarial e político. Segundo ela, essa popularização ganhou força a partir de 2016 e 2018. A observação diz respeito à difusão da palavra, sem estabelecer que o narcisismo tenha se tornado mais frequente.